Amizade no trabalho ajuda ou atrapalha a carreira? Entenda os limites Quem acessou as redes sociais nos últimos meses provavelmente se deparou com vídeos sobre amizades no trabalho. Trends no TikTok mostram como profissionais criaram relações no escritório que acabam ultrapassando o expediente. É o caso das biólogas marinhas Mônica Pontalti e Carolina Iozzi Relvas. Elas se conheceram em 2017, durante o primeiro embarque de Carolina para atuar como observadora de mamíferos marinhos. ?? Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1 A convivência durante os 45 dias embarcadas fortaleceu a amizade entre elas, que evoluiu para uma parceria profissional. Hoje, Carolina é uma das principais instrutoras da empresa de treinamentos e cursos fundada por Mônica. Ao longo dos anos, elas ministraram cursos presenciais em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, além de diversas capacitações on-line. Segundo Carolina, ter uma amiga a bordo sempre tornou o trabalho mais leve e acolhedor. “Em embarcações, onde os profissionais passam longos períodos longe da família e dos amigos, contar com alguém de confiança faz diferença”, conta. As biólogas marinhas Mônica Pontalti e Carolina Iozzi Relvas transformaram uma parceria de trabalho em uma amizade que atravessa anos e projetos profissionais. Arquivo Pessoal Outro exemplo é o das engenheiras Catherine Ferreira e Lívia Cipriano Magalhães, cuja amizade nasceu durante um treinamento a bordo. Catherine ingressou em uma empresa especializada em automação e sistemas de tecnologia para embarcações e teve Lívia como instrutora em sua primeira viagem de trabalho. Mesmo após deixarem de atuar no mesmo departamento, Catherine e Lívia mantiveram a proximidade. Hoje, elas trabalham em áreas diferentes da mesma empresa e raramente embarcam juntas, mas procuram se encontrar durante as folgas, organizar viagens e participar de encontros com outros colegas. As engenheiras Lívia Cipriano Magalhães e Catherine Ferreira se conheceram durante um embarque e transformaram a parceria profissional em uma amizade que dura até hoje. Arquivo Pessoal Limite entre amizade e profissionalismo Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que construir vínculos no ambiente corporativo é saudável e traz benefícios tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. O desafio está em impedir que a relação pessoal interfira nas decisões profissionais. "É inevitável que a gente crie relações que vão além do profissional. A gente passa muito tempo do nosso dia no trabalho", afirma Muller Gomes, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half. Segundo ele, amizades favorecem a colaboração, tornam a comunicação mais fluida, fortalecem a troca de conhecimento e contribuem para o desenvolvimento da carreira por meio do networking. Na avaliação do especialista, essas relações também fazem parte do chamado salário emocional — fatores que não aparecem no contracheque, mas influenciam diretamente a satisfação e a permanência dos profissionais nas empresas. Um bom ambiente de trabalho, boas relações e a sensação de pertencimento pesam muito quando alguém decide ficar ou sair de uma empresa. Solidão no trabalho afeta quase metade dos brasileiros Arte g1 Uma pesquisa do Indeed Brasil, realizada com 1.065 trabalhadores em janeiro de 2025, mostra que as amizades no trabalho são percebidas como um fator que favorece o desempenho profissional. Segundo o levantamento: 57% acreditam que esses vínculos melhoram a colaboração entre equipes; 52% afirmam que tornam o trabalho mais agradável; 50% dizem que ter alguém com quem conversar ajuda a reduzir o estresse; 45% associam as amizades ao aumento da motivação e da produtividade; apenas 7% afirmam que elas não influenciam o desempenho profissional; 54% dizem ter um melhor amigo no trabalho. Outro levantamento, do Índice de Confiança do Trabalhador, do LinkedIn, mostra que 55% dos profissionais brasileiros dizem ter amigos no ambiente de trabalho, mas apenas 35% consideram esse tipo de relação necessário. Nos Estados Unidos, uma pesquisa da KPMG com 1.019 trabalhadores encontrou resultados semelhantes. Segundo o estudo, 87% consideram muito importante ter amigos próximos no ambiente profissional, e 84% afirmam que esses vínculos são essenciais para a saúde mental. Além disso, 57% dizem que aceitariam um emprego com salário 10% menor em uma empresa onde pudessem construir amizades próximas, em vez de trabalhar em outra que pagasse 10% acima do mercado, mas não proporcionasse essas conexões. "Elas criam um tecido de confiança que acelera a colaboração, aumenta a fluidez das entregas e amplia a sensação de pertencimento. Ninguém entrega o seu melhor em um ambiente onde se sente sozinho”, explica Camilla Pádua, sócia-líder da área de consultoria em gestão de pessoas da KPMG no Brasil. Quando a amizade vira problema? Apesar dos benefícios, especialistas alertam que a amizade não pode se sobrepor ao profissionalismo. Para Eliane Aere, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo (ABRH-SP), o principal risco surge quando a relação pessoal passa a influenciar decisões que deveriam ser pautadas por critérios técnicos e de mérito, como avaliações de desempenho, promoções, distribuição de tarefas e feedbacks. "A amizade deve adicionar valor ao seu trabalho, não subtrair a sua objetividade", afirma. Segundo ela, sinais como favorecimento, dificuldade para tratar todos os colegas com os mesmos critérios e formação de "panelinhas" indicam que a relação deixou de ser saudável. Lucimara Costa, diretora de Recursos Humanos da Nexti, concorda e afirma que o problema começa quando o vínculo pessoal interfere nas responsabilidades profissionais. "Quando você deixa de dar um feedback necessário para não magoar um amigo ou toma decisões baseadas em afinidade, e não em competência, esse limite foi ultrapassado", explica. Outro desafio aparece quando amigos passam a ocupar posições de liderança. Para Rodrigo Vianna, transparência e profissionalismo são essenciais nesses casos. "O cuidado é garantir que a amizade não influencie decisões da empresa nem gere percepções de favorecimento", afirma. A confraternização da empresa é um evento social para integrar e motivar colaboradores fora do ambiente de trabalho. Freepik/ Reprodução Ausência de vínculos também preocupa Se as amizades fazem bem, a falta delas também pode trazer consequências. Marcela Zaidem, fundadora da consultoria Cultura na Prática, explica que especialistas têm chamado de solidão corporativa a sensação de isolamento vivida por profissionais que, mesmo cercados por colegas, reuniões e mensagens, não conseguem criar conexões significativas. "Amizade é um recurso relacional, não um modelo de gestão. Cultura séria não se constrói no acaso", afirma. Segundo ela, pertencimento depende de fatores como confiança, respeito, segurança psicológica e qualidade da liderança. Muller Gomes lembra que o ser humano não foi feito para viver isolado. "A falta de interação pode afetar a produtividade, a saúde mental e até o desenvolvimento profissional, já que o networking é fundamental para oportunidades de carreira", explica. Bruno Gonçalves acrescenta que a solidão corporativa está associada ao aumento do absenteísmo, à queda da criatividade e ao enfraquecimento do engajamento. "Tem gente empregada que se sente tão sozinha quanto quem não tem emprego nenhum", completa. Segundo um levantamento da Pluxee com mais de 2 mil brasileiros, 47% dizem se sentir sozinhos no trabalho, seja frequentemente ou às vezes. Outro dado chama atenção: 78% consideram essencial ter amizades verdadeiras no ambiente profissional, indicando que a qualidade das relações influencia diretamente a experiência no emprego. As conexões ajudam a retenção de talentos. Em uma escala de 1 a 5, os entrevistados atribuíram nota média de 3,39 ao impacto das amizades na decisão de permanecer ou deixar uma empresa. Como construir amizades saudáveis no trabalho? Os especialistas recomendam alguns cuidados para manter relações positivas sem comprometer o desempenho profissional: Evitar privilégios a colegas próximos em promoções, avaliações ou distribuição de tarefas; Respeitar os limites pessoais dos outros profissionais; Separar critérios profissionais das relações pessoais; Manter imparcialidade em feedbacks e decisões; Preservar informações confidenciais; Evitar que conflitos pessoais interfiram nas atividades da equipe. Também é importante observar alguns sinais de que a amizade pode estar ultrapassando os limites: Você evita dar feedback por medo de perder a amizade; Decisões passam a ser tomadas por afinidade e não por mérito; Informações confidenciais são compartilhadas fora do contexto profissional; Há percepção de favorecimento ou formação de grupos fechados; Conflitos pessoais começam a afetar o desempenho da equipe. Muller Gomes resume a discussão em uma palavra: maturidade. "A amizade ajuda até certo ponto. É preciso entender quando ela contribui e quando começa a atrapalhar", explica. NR-1: veja o que muda com a nova regra sobre saúde mental no trabalho
Amizade no trabalho ajuda ou atrapalha a carreira? Especialistas explicam onde está o limite
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