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Shein pode se tornar um incômodo maior para varejo brasileiro depois do IPO

(FOLHAPRESS) - Aguardada há anos por investidores, a estreia da Shein na Bolsa de Valores de Hong Kong, prevista para o final deste trimestre, põe fim à seca de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) que tomou o...

Shein pode se tornar um incômodo maior para varejo brasileiro depois do IPO
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(FOLHAPRESS) - Aguardada há anos por investidores, a estreia da Shein na Bolsa de Valores de Hong Kong, prevista para o final deste trimestre, põe fim à seca de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) que tomou o setor de varejo de moda globalmente.

Entre as varejistas têxteis brasileiras, no entanto, há poucos motivos para comemorar. Um relatório do BTG Pactual publicado neste mês apontou que, depois de levantar capital com a venda de ações, a Shein terá fôlego para praticar preços ainda mais baixos e, assim, aumentar a vantagem competitiva no país.

As cadeias de lojas de roupas listadas na B3, segundo o BTG, vão precisar de esforços contínuos de diferenciação -especialmente porque, em preço, é difícil que as redes nacionais consigam competir.

"Isso reforça a necessidade de as varejistas brasileiras continuarem a se diferenciar por meio do desenvolvimento de produtos mais ágil, marcas mais fortes, capacidades omnichannel [múltiplos canais de comunicação com o cliente], personalização impulsionada por inteligência artificial e uma experiência do cliente superior, em vez de dependerem apenas de preços", dizem os analistas do BTG.

Desde que o gigante do e-commerce desembarcou no Brasil, na pandemia, o varejo de moda nacional se viu diante de um desafio: encontrar meios para brigar pela preferência do consumidor, sensível a preço, sem comprometer as finanças.

A criação em 2024 da chamada "taxa das blusinhas", imposto de importação de 20% para compras internacionais de até US$ 50, deixou a competição mais equilibrada, na visão das redes brasileiras.

E, mesmo com a entrada da nova concorrente chinesa, as três grandes varejistas brasileiras têm conseguido crescer em vendas. Desde 2023, as vendas de Renner, Riachuelo e C&A têm crescido ano a ano.

Para a Shein, o Brasil continua sendo estratégico. Segundo o prospecto do IPO divulgado neste domingo (26), o país representa um mercado-chave para proteção de marca e um componente significativo da sua fatia de vendas internacionais fora de EUA e Europa.

A empresa conseguiu driblar parte do ônus da taxação ao ajustar a política de preços e criar centros de distribuição para entregas mais ágeis. Também passou a produzir roupas localmente e abriu o marketplace para vendedores nacionais.

O imposto federal 'das blusinhas' foi zerado em maio, mas um retorno não é descartado. O ministro Dario Durigan (Fazenda) admitiu nesta segunda-feira (27) que as encomendas internacionais estão subindo de novo. Ele falou em propor ao presidente Lula (PT) a volta da taxação. Em junho, mês seguinte ao fim da taxação, foram 28 milhões de encomendas; no mesmo período do ano passado, 13 milhões.

Com ou sem taxa das blusinhas, para a Shein, a expectativa é que o crescimento das vendas no Brasil volte a acelerar, diz o BTG.

REAÇÃO À IMPORTAÇÃO DAS BLUSINHAS

De 11 de maio, véspera da revogação da "taxa das blusinhas", até sexta-feira (24), as principais empresas de moda do país acumulam queda acentuada na Bolsa.A lista é liderada pela C&A, em recuo de 17%, seguida por Riachuelo (-12,5%) e Lojas Renner (-3,5%). Já o Ibovespa acumula desvalorização de 4% no período.

A previsão da XP é que o fim do tributo gere um impacto negativo de até 5% sobre as vendas do setor de vestuário, o já refletido no desempenho recente das ações.

Com a Shein turbinada pelo IPO, as varejistas brasileiras terão de redobrar o esforço. "Quando pensamos em uma competidora desse tamanho, capitalizada e entrando em um mercado pressionado, o 'profit pool' [lucro total gerado em um setor] vai ser dividido entre mais empresas", diz Felipe Cima, especialista em renda variável da Manchester Investimentos.

Em paralelo, as companhias brasileiras, sensíveis à economia doméstica, ainda lidam com outro obstáculo: a taxa Selic em dois dígitos há quatro anos. Com o juro alto, o custo de financiamento aumenta, comprimindo margens e dificultando reinvestimentos. Também reduz o consumo, especialmente entre famílias de menor renda que dependem de parcelamento para comprar.

Por causa do cenário de endividamento e da onda de recuperações judiciais que tomou o setor, como Grupo Toky (dono da Tok&Stok) e Grupo Pão de Açúcar, gestores de grandes fundos de renda variável têm fugido do varejo na totalidade.

Isso também explica o desempenho dos papéis. No acumulado do ano, C&A, Riachuelo e Lojas Renner somam perdas de 26%, 11% e 1,5%, respectivamente. Já o Ibovespa avança 9%.

Diante desse cenário, as varejistas brasileiras têm se armado. "As companhias estão muito melhor estruturadas, com posicionamento de produto e de preço mais ajustados. Estão com iniciativas focadas em melhorar a rentabilidade, com possíveis 'buffers' [colchão de segurança] para caso precisem ser mais competitivas em preço", diz Danniela Eiger, chefe de varejo e da área de análise de ações da XP.

Analistas estão otimistas com os balanços que Riachuelo, C&A e Renner divulgam do segundo trimestre na próxima semana. Segundo dados coletados pela Bloomberg, 10 em 11 profissionais recomendam a compra de ações da Riachuelo, e o único de fora da conta aposta na manutenção. No caso da C&A, todos os 13 analistas recomendam compra, e, para a Renner, a proporção é de 12 entre 16; os quatro restantes recomendam manutenção.

Os analistas também consideram que o preço das ações em Bolsa está atrativo. O P/L (preço sobre lucro, indicador que avalia se um ativo está caro ou barato) da Renner, por exemplo, está em 9 vezes, enquanto Riachuelo e C&A rodam com P/Ls de 5x e 2,5x. Números abaixo de 10x indicam que o papel está descontado. O do Ibovespa, para efeito de comparação, está em 11x.

O clima de 2026 também deve ajudar na venda das coleções. "As temperaturas foram mais adversas em 2025. O inverno se estendeu até quase novembro, e isso comprometeu a coleção de transição primavera/verão. Esse ano, esperamos uma dinâmica positiva com El Niño"

A Renner, segundo relatório do Santander, investiu entre 2017 e 2021 em logística, incluindo o desenvolvimento do centro de distribuição em Cabreúva (SP). "Com esses investimentos estruturais em grande parte concluídos, a empresa retomou a expansão com uma base de capital mais eficiente", diz o banco.

A C&A também está apostando em infraestrutura, prevendo abertura de novas lojas e descentralizando centros de distribuição. O nível de investimentos é de R$ 250 milhões em três anos, afirmou o CEO da empresa, Paulo Côrrea, em agosto passado.

Já a Guararapes, dona da Riachuelo, está abrindo mão de ativos não essenciais, por exemplo, com a venda do shopping Midway Mall, em Natal (RN), por R$ 1,61 bilhão em dezembro de 2025.

Procuradas pela Folha, as empresas não comentaram sua estratégia por estarem em período de silêncio antes da divulgação dos resultados.

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