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Irã executa publicamente dois manifestantes e amplia repressão após protestos

Jovens foram condenados por suposto envolvimento na morte de quatro agentes de segurança; organizações denunciam julgamentos fechados, confissões forçadas e risco de novas execuções O Irã executou publicamente nesta...

Irã executa publicamente dois manifestantes e amplia repressão após protestos
Imagem fornecida pela publicação original: Fonte não identificada

Jovens foram condenados por suposto envolvimento na morte de quatro agentes de segurança; organizações denunciam julgamentos fechados, confissões forçadas e risco de novas execuções

O Irã executou publicamente nesta terça-feira, 28 de julho, dois homens presos durante a onda de manifestações contra o governo realizada no início de 2026. As mortes fazem parte de uma campanha de repressão que, segundo organizações internacionais, utiliza a pena de morte para intimidar opositores e impedir o surgimento de novos protestos.

Os condenados foram identificados como Abolfazl Sepahi-Badjani e Amirhossein Safari-Hosseinabadi. Eles haviam sido detidos após confrontos ocorridos em 8 de janeiro na Praça Alikhani, na cidade de Isfahan, uma das principais áreas atingidas pelas manifestações.

Segundo a agência Mizan, vinculada ao Judiciário iraniano, os dois participaram da morte de quatro integrantes das forças de segurança. As autoridades também atribuíram aos réus acusações relacionadas à posse de armas, incêndios, depredação de prédios e destruição de propriedades públicas.

Organizações de direitos humanos, entretanto, afirmam que os homens foram julgados em um processo coletivo marcado por graves irregularidades, sem a apresentação de provas individualizadas e com utilização de declarações obtidas durante o período de detenção.

Execuções aconteceram diante do público

As sentenças foram cumpridas nas primeiras horas da manhã, em meio a uma forte operação de segurança em Isfahan.

Relatos divulgados por ativistas indicavam que uma estrutura de ferro havia sido instalada na Praça Alikhani na noite anterior, aumentando o temor de que o local fosse utilizado para enforcamentos públicos.

Moradores teriam se aproximado da praça durante a madrugada, enquanto agentes de segurança cercavam a região. Também foram divulgadas informações sobre pequenos confrontos entre os presentes e as forças iranianas. Esses relatos não puderam ser confirmados de maneira independente.

A agência Mizan anunciou as execuções, mas não informou inicialmente o local exato. Posteriormente, a agência semioficial Mehr declarou que as mortes ocorreram na Praça Alikhani diante de um grupo de pessoas. Organizações como a Anistia Internacional e a Iran Human Rights também afirmaram que os enforcamentos foram realizados publicamente. Reuters

Doze pessoas receberam a pena de morte no mesmo caso

Abolfazl Sepahi-Badjani e Amirhossein Safari-Hosseinabadi faziam parte de um grupo de pelo menos 12 jovens condenados à morte pelo chamado “caso da Praça Alikhani”.

Outros dois réus do mesmo processo, Erfan Esfandiari e Gol-Mohammad Mohammadi, foram executados em 19 de julho. Com as novas mortes, quatro dos 12 condenados já tiveram suas sentenças cumpridas.

Oito outros homens continuam no corredor da morte e, segundo a Anistia Internacional, correm risco iminente de execução. Entre eles está Shervin Bagherian, que havia completado 18 anos poucos dias antes de ser detido.

A organização afirma que Bagherian desapareceu por 21 dias após a prisão e teria sido submetido a agressões e outras formas de maus-tratos. Uma declaração apresentada como confissão foi exibida pela televisão estatal antes mesmo da realização do julgamento.

Segundo a Anistia, o jovem não teve acesso a um advogado durante a fase de investigação. As autoridades iranianas negam de maneira recorrente as acusações de tortura e abusos contra detidos. Anistia Internacional

Especialistas da ONU denunciaram julgamento coletivo

Um grupo de especialistas das Nações Unidas havia pedido ao governo iraniano que suspendesse as execuções dos réus ligados ao caso da Praça Alikhani.

Os especialistas afirmaram que os 12 acusados receberam a pena de morte durante uma única audiência realizada a portas fechadas. Também disseram que não ficou esclarecida a responsabilidade individual de cada réu pelos crimes atribuídos ao grupo.

De acordo com a ONU, esse tipo de procedimento viola os padrões internacionais de julgamento justo. Os acusados teriam sido submetidos a detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados e, em alguns casos, maus-tratos.

Outro motivo de preocupação é a utilização de supostas confissões divulgadas pela televisão estatal. Especialistas destacam que declarações obtidas por coerção não podem ser aceitas como provas e que sua exibição antes do julgamento viola o princípio da presunção de inocência.

As decisões completas do processo não foram tornadas públicas, dificultando a verificação das provas utilizadas pelo Judiciário iraniano.

Protestos começaram após agravamento da crise econômica

As manifestações começaram em 28 de dezembro de 2025, inicialmente motivadas pelo aumento do custo de vida, pela desvalorização da moeda iraniana, pela inflação e pela deterioração das condições econômicas.

Os protestos rapidamente se transformaram em um movimento mais amplo contra o sistema político e religioso da República Islâmica. Milhares de pessoas foram às ruas em diferentes cidades, algumas delas defendendo abertamente o fim do governo clerical.

As autoridades responderam com uma operação de repressão em grande escala, envolvendo forças policiais, integrantes da Guarda Revolucionária e membros da milícia Basij.

Grupos de direitos humanos afirmam que milhares de manifestantes e pessoas que estavam próximas aos protestos foram mortos, especialmente durante os confrontos de 8 e 9 de janeiro. Dezenas de milhares teriam sido detidos.

Os números variam de acordo com cada organização e não puderam ser confirmados de maneira independente, principalmente por causa das restrições à imprensa e dos prolongados bloqueios de internet impostos pelo governo.

Pena de morte é utilizada contra opositores

Antes das execuções desta terça-feira, especialistas da ONU informaram que pelo menos 24 pessoas já haviam sido mortas por acusações relacionadas aos protestos de janeiro.

A Human Rights Watch calcula que pelo menos 50 pessoas foram executadas nos últimos quatro meses com base em acusações consideradas amplas ou imprecisas relacionadas à segurança nacional.

Já a Anistia Internacional afirma que, desde o início dos ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, as autoridades intensificaram as execuções de manifestantes, dissidentes e pessoas acusadas de colaborar com governos estrangeiros.

Muitos réus são condenados por crimes conhecidos no sistema jurídico iraniano como “inimizade contra Deus” e “corrupção na Terra”. Essas acusações podem resultar em pena de morte e são frequentemente aplicadas em processos envolvendo manifestações, oposição política, espionagem ou ataques contra instalações governamentais.

Organizações internacionais argumentam que algumas pessoas foram condenadas por atos como bloquear ruas, participar de incêndios, danificar propriedades ou divulgar informações sobre os protestos. Para defensores dos direitos humanos, essas condutas não atingem o nível exigido pelo direito internacional para a aplicação da pena capital.

Confissões exibidas pela televisão provocam questionamentos

A utilização de confissões gravadas durante a detenção é uma das principais críticas feitas ao sistema judicial iraniano.

Em diversos casos, os acusados aparecem em vídeos transmitidos por canais estatais admitindo participação em ataques, incêndios ou atividades consideradas contrárias à segurança nacional. As gravações frequentemente são exibidas antes do julgamento.

Familiares e organizações humanitárias alegam que muitas dessas declarações são obtidas mediante tortura, ameaças ou pressão psicológica. Também há relatos de réus impedidos de escolher seus próprios advogados ou de consultar defensores durante os interrogatórios.

O governo iraniano afirma que os processos seguem a legislação nacional e que os condenados participaram de atos violentos, terrorismo ou operações promovidas por Israel, pelos Estados Unidos e por organizações consideradas inimigas da República Islâmica.

Guerra aumentou pressão sobre a população iraniana

A repressão ocorre enquanto o Irã enfrenta um cenário de guerra, isolamento internacional e instabilidade interna.

A campanha militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel começou em 28 de fevereiro e atingiu dirigentes, instalações militares e estruturas estratégicas iranianas. Os ataques mataram o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e outros integrantes da cúpula do país.

Os principais confrontos foram temporariamente interrompidos por um acordo firmado em junho, mas novos ataques ocorreram em julho. O presidente norte-americano Donald Trump advertiu que as operações poderão ser retomadas caso as negociações não resultem em um acordo.

As autoridades iranianas utilizam a situação de guerra para justificar medidas mais rigorosas contra opositores. O governo sustenta que manifestações e contatos com organizações estrangeiras podem representar ameaças à segurança nacional.

Grupos de direitos humanos, por outro lado, afirmam que o conflito está servindo como justificativa para acelerar julgamentos, executar presos e silenciar denúncias de abusos.

Trump havia ameaçado reagir às execuções

Em janeiro, quando os protestos ainda estavam se espalhando pelo país, Donald Trump advertiu as autoridades iranianas contra o uso de armas de fogo e enforcamentos contra manifestantes.

Na ocasião, o presidente afirmou que os Estados Unidos poderiam adotar medidas severas caso o governo iraniano começasse a executar pessoas detidas nas manifestações.

Apesar dessas declarações e das posteriores operações militares contra o Irã, as execuções relacionadas aos protestos continuaram.

Organizações humanitárias avaliam que a resposta internacional tem sido insuficiente e pedem uma ação diplomática coordenada para pressionar Teerã a suspender imediatamente as sentenças.

A Anistia Internacional defende a criação de uma moratória sobre a pena de morte e solicita que a situação dos direitos humanos no Irã seja encaminhada ao Tribunal Penal Internacional.

Enquanto isso, as famílias dos oito homens que permanecem condenados no caso da Praça Alikhani enfrentam o temor de que novas execuções sejam realizadas a qualquer momento.

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