JÚLIA MOURA E MATHEUS DOS SANTOSSÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cenário não está bom para pegar ou pagar um empréstimo. E ele não deve melhorar tão cedo. Essa é a avaliação de economistas, analistas e dos próprios bancos privados para o restante de 2026, em meio a juros mais altos do que o esperado e a um elevado comprometimento da renda das famílias brasileiras.
Bancos veem piora do crédito e sinalizam aperto nos empréstimos diante da alta dos calotes
JÚLIA MOURA E MATHEUS DOS SANTOSSÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cenário não está bom para pegar ou pagar um empréstimo. E ele não deve melhorar tão cedo. Essa é a avaliação de economistas, analistas e dos próprios bancos...
"Eu acho que o ciclo do crédito vai ser desafiador", disse Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, maior banco do país, durante teleconferência com analistas nesta quarta-feira (5). "Vivemos hoje um excesso de crédito dado pelo mercado." O executivo disse que, neste momento, prefere abrir mão de crescimento e participação de mercado a correr o risco de lidar com a inadimplência depois.
O Bradesco também prometeu cautela. "Não estamos fazendo loucura. Estamos reduzindo o crédito pessoal e fazendo colateralizado", disse o presidente Marcelo Noronha a jornalistas, nesta quinta (6).
A cautela dos executivos se reflete nas reservas para perdas com calotes que os três maiores bancos privados do país -Itaú Unibanco, Bradesco e Santander- fizeram no segundo trimestre, conforme mostraram nos balanços divulgados nas duas últimas semanas.
Somados, os três bancos provisionaram R$ 28,7 bilhões, uma alta de 12,4% em comparação com o mesmo período de 2025. O colchão de segurança inflou mais do que os empréstimos. A carteira de crédito subiu apenas 9,4% no período, indo a R$ 3,37 trilhões.
"É um momento difícil para o setor bancário. A inflação está corroendo a renda das famílias e o juro alto está reduzindo a capacidade de financiamento das empresas", diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.
Em maio deste ano, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu o pico da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Naquele mês, 4,74% de todo o crédito concedido estava em atraso há mais de 90 dias. Em junho, após o início do Desenrola 2.0, esse indicador teve ligeira queda para 4,68%, ainda bem acima da média histórica de 3,29%.
Segundo Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, o percentual reflete não só a Selic a 14%, mas a precificação de juros futuros ainda altos, dada a percepção de risco fiscal no Brasil -quanto mais medo de calote, mais se cobra para emprestar dinheiro- o que encarece o custo do dinheiro como um todo.
Além disso, no início do ano, o mercado esperava que a Selic caísse para a faixa de 12%. Agora, se espera apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa, levando-a para 13,75%.
"Outro ponto de atenção é a inflação dos alimentos, que compromete mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo", afirma Ataliba.
Neste ano, o comprometimento de renda dos lares também chegou ao maior valor da série do BC. O endividamento das famílias com os bancos em relação à renda acumulada dos últimos 12 meses foi a 49,93% em janeiro, mês em que os brasileiros costumam se enrolar com as contas de início de ano. O percentual é o pico da série iniciada em 2005 e se mantinha bem próximo disso até maio, último dado disponível.
Apesar de o desemprego estar na mínima, a perspectiva para os próximos meses não é de melhora, já que o mercado espera uma desaceleração da atividade econômica como fruto de juros altos.
"A transmissão da Selic na ponta é muito lenta. Olhando esses sinais, a tendência é que a inadimplência piore ou, no mínimo, se estabilize no segundo semestre", diz Ataliba.
Para Yihao Lin, economista da Genial Investimentos, o fim da guerra no Oriente Médio e um El Niño menos intenso poderiam abrir espaço para mais reduções da Selic, o que beneficiaria o mercado de crédito. "Mas, para discutirmos juros estruturalmente mais baixos e uma aceleração sustentável do ciclo de cortes, é inevitável falar sobre o fiscal."
Os bancos dizem ver um ajuste fiscal no próximo mandato presidencial, independentemente do candidato eleito.
"Quando você tem juros mais elevados, somados a uma inadimplência e a um comprometimento da renda bastante elevados, o risco para os bancos aumenta. Isso gera um maior custo do crédito e uma postura mais cuidadosa por parte dessas empresas", diz Yihao Lin.
Por enquanto, a postura de maior cautela das instituições financeiras se manifesta na restrição de crédito para consumidores de baixa renda e na preferência por empréstimos com garantia.
A oferta é focada no crédito consignado CLT, no financiamento imobiliário e de veículos com colateral e linhas com garantia do governo via FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e o FGO (Fundo Garantidor de Operações) para pequenas e médias empresas.
Ainda assim, os três principais bancos privados do país aumentaram as suas proteções contra calotes no segundo trimestre. Itaú Unibanco e Bradesco afirmaram que a provisão contra devedores duvidosos (PDD) acompanhou o crescimento da carteira de crédito como um todo.
Já o Santander citou o cenário macroeconômico. O braço brasileiro da instituição da Espanha teve o pior balanço no segundo trimestre entre os pares, avaliam analistas, com o lucro abaixo do esperado dado o maior gasto com PDD.
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