Mundo

Previdência suspende acesso de 167 peritos por suspeita de negativas irregulares de auxílio-doença

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Ministério da Previdência Social restringiu temporariamente o acesso de 167 dos 3.560 peritos médicos federais ao novo modelo do Atestmed após ter identificado indícios de negativas...

Compartilhar
Previdência suspende acesso de 167 peritos por suspeita de negativas irregulares de auxílio-doença
Noticias ao Minuto - Ultima Hora

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Ministério da Previdência Social restringiu temporariamente o acesso de 167 dos 3.560 peritos médicos federais ao novo modelo do Atestmed após ter identificado indícios de negativas irregulares de benefícios. O sistema permite a concessão do auxílio-doença (atual benefício por incapacidade temporária) por meio da análise de documentos, sem perícia presencial, por um período de até 90 dias.

Segundo o ministério, a restrição começou a ser adotada em maio deste ano, cerca de um mês após a entrada em funcionamento do chamado Atestmed Qualificado. A versão reformulada do sistema foi criada para tornar mais detalhada a análise remota dos documentos apresentados pelos segurados e ajudar a reduzir a fila do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A pasta afirma que os índices gerais de concessão e indeferimento do Atestmed permanecem semelhantes aos das perícias presenciais, com cerca de 60% a 65% de deferimentos e entre 35% e 40% de negativas.

Ainda assim, diz ter identificado, entre abril e maio, casos com percentuais de indeferimento muito acima da média, o que levou ao aprofundamento da análise das decisões dos peritos.

Também foram encontrados indícios de uso reiterado de fundamentações padronizadas, sem individualização suficiente dos documentos apresentados em cada processo, o que motivou a restrição. Em um dos casos analisados, por exemplo, um perito indeferiu mais de 90% dos pedidos avaliados, com análises que duravam menos de cinco minutos.

Os pedidos de benefício analisados pelos peritos atingidos estão passando por revisão, segundo pessoas a par do assunto ouvidas pela reportagem. Os casos estão sendo reavaliados por outros peritos e, quando esses profissionais identificam que o segurado tinha direito ao benefício, a concessão é realizada.

ASSOCIAÇÃO CONTESTA RESTRIÇÃO

A ANMP (Associação Nacional dos Peritos Médicos Federais) contesta a medida e ingressou na Justiça contra o ministério. Em nota, o presidente da entidade, Luiz Carlos de Teive e Argolo, afirma que a associação não questiona os dados estatísticos apresentados pelo governo, mas a forma como eles foram utilizados.

"Não há, na legislação, percentual mínimo ou máximo de concessão, nem meta de deferimento ou de indeferimento", afirma.

Segundo Argolo, a lei n.º 11.907/2009 assegura autonomia técnica aos peritos. "Um índice de indeferimento mais alto reflete o rigor técnico legítimo de cada profissional, e não uma irregularidade. Divergir da média não constitui infração alguma."

Em nota, o ministério afirma que a decisão tem caráter cautelar e temporário e decorre do monitoramento das análises realizadas pelo DPMF (Departamento de Perícia Médica Federal).

Segundo a pasta, a análise considerou aspectos como a documentação apresentada, as justificativas registradas pelos peritos e o tempo de execução das tarefas. Também avaliou a relação entre os documentos médicos e a conclusão adotada.

O ministério afirma ainda que a medida busca garantir decisões técnicas, imparciais e individualizadas e informou que prepara uma capacitação nacional dentro dos próximos 15 dias para todos os peritos sobre o funcionamento do novo Atestmed.

Apesar da restrição ao sistema, a pasta afirma que os profissionais continuam aptos a realizar perícias presenciais e outras atividades da carreira.

NOVO ATESTMED

A restrição ocorre poucos meses após o governo reformular o Atestmed. As mudanças, implementadas após recomendações do TCU (Tribunal de Contas da União), passaram a permitir que peritos neguem pedidos feitos exclusivamente com base na análise documental –possibilidade inexistente no modelo anterior.

Paulo Liporaci, advogado da ANMP, afirma que os peritos tiveram o acesso ao sistema restringido sem comunicação prévia e sem a instauração de procedimento administrativo que lhes permitisse apresentar defesa antes da medida.

Segundo ele, a implementação do Atestmed Qualificado ocorre em um momento em que o governo Lula (PT) busca consolidar a redução da fila do INSS, tema que ganha maior relevância em ano eleitoral.

Para a entidade, porém, a perícia presencial continua sendo o modelo mais adequado para avaliar a concessão do benefício por incapacidade temporária.

DIVERGÊNCIA SOBRE OS CRITÉRIOS

Liporaci afirma ainda que os índices elevados de indeferimento podem ter diferentes explicações. Entre elas, cita a fase de adaptação ao novo sistema e uma postura mais rigorosa de parte dos peritos, que entendem que determinados casos exigem avaliação presencial.

Também menciona a própria distribuição dos processos entre os profissionais, já que alguns podem receber proporcionalmente mais pedidos com documentação insuficiente ou inconsistências, o que resultaria em um número maior de negativas.

O advogado também contesta a associação feita pelo ministério entre o tempo de análise e a qualidade da decisão. Segundo ele, há situações em que o indeferimento pode ocorrer em poucos minutos.

Isso acontece, por exemplo, quando o segurado deixa de apresentar um atestado médico e anexa documentos manifestamente inadequados, como uma selfie ou a fotografia de uma parte do corpo. Nesses casos, afirma, a negativa pode ser imediata pela ausência da documentação exigida.

A associação também contesta a conclusão do ministério de que houve uso de fundamentações padronizadas. Segundo Luiz Carlos de Teive e Argolo, análises reunidas pela entidade mostram que os pareceres continham informações individualizadas, como CID, CRM do médico responsável e inconsistências específicas encontradas na documentação apresentada pelos segurados.

Documentos reunidos pela associação apontam ainda que o tempo de análise dos casos pelos peritos varia conforme a complexidade, chegando, em alguns deles, a durar entre 5 e 31 minutos.

Para a ANMP, o governo selecionou os profissionais apenas com base em estatísticas, sem verificar individualmente se as decisões estavam corretas.

A entidade afirma ainda que a restrição impede, por prazo indeterminado, que os peritos realizem parte de suas atribuições e pode afetar atividades remuneradas por bônus de produtividade. O ministério nega.

Segundo a pasta, os profissionais não foram retirados dos programas de gestão e produtividade, e a restrição se limita à análise de pedidos pelo Atestmed Qualificado, podendo ser revertida após análise técnica, manifestação do servidor e eventual capacitação.

"O MPS reafirma seu compromisso com a legalidade, a eficiência administrativa, a autonomia técnica dos peritos médicos federais, a segurança das análises periciais e a proteção dos segurados que dependem de benefícios de natureza alimentar", adiciona a pasta.

Leia Também: FMI aumenta previsão de crescimento do Brasil e da China, mas reduz a do mundo

Fonte: Noticias ao Minuto - Ultima Hora

Esta notícia foi publicada originalmente por Noticias ao Minuto - Ultima Hora. Consulte a publicação original para mais detalhes.

Abrir publicação original
Leia também

Leia também