Em seu último discurso de abertura de uma Assembleia Geral da ONU, o secretário-geral da entidade, António Guterres, foi fiel ao que se tornou sua marca ao longo de uma década no cargo. Mais do que chefe das Nações Unidas, o ex-premiê português foi um porta-voz de uma consciência crítica sobre a atuação da entidade e de seus integrantes mais poderosos, especialmente em temas como as mudanças climáticas.
Secretário-geral da ONU acusa petrolíferas de transformarem atmosfera em “esgoto a céu aberto”
Em seu último discurso de abertura de uma Assembleia Geral da ONU, o secretário-geral da entidade, António Guterres, foi fiel ao que se tornou sua marca ao longo de uma década no cargo. Mais do que chefe das Nações Unidas, o ex-premiê...
Na 3ª feira (22/9), Guterres não mediu palavras para apontar o dedo para os principais beneficiários da crise climática: a indústria de combustíveis fósseis. “Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto e lucraram com as consequências.
- Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, as cinco maiores empresas petrolíferas ocidentais embolsaram quase meio trilhão de dólares em lucros”, disse.
- Para Guterres, é crucial que os países avancem na transição energética e no fim da dependência dos combustíveis fósseis para conter a ganância do Big Oil.
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Na 3ª feira (22/9), Guterres não mediu palavras para apontar o dedo para os principais beneficiários da crise climática: a indústria de combustíveis fósseis. “Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas trataram a atmosfera como um esgoto a céu aberto e lucraram com as consequências. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, as cinco maiores empresas petrolíferas ocidentais embolsaram quase meio trilhão de dólares em lucros”, disse.
Para Guterres, é crucial que os países avancem na transição energética e no fim da dependência dos combustíveis fósseis para conter a ganância do Big Oil. “Hoje, apelo a todos os governos para que adotem um plano nacional de transição para longe dos combustíveis fósseis, alinhado com o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5°C, com cronogramas claros e proteção para os trabalhadores e comunidades afetadas”, destacou.
A crise climática é um dos quatro desafios de poder que devem moldar o futuro da humanidade, segundo Guterres, ao lado de segurança coletiva, desigualdade socioeconômica e inteligência artificial. A fragmentação geopolítica, impulsionada pelo unilateralismo das grandes potências, está enfraquecendo o multilateralismo e dificultando a construção e a implementação de soluções coletivas para os problemas comuns da humanidade, ressaltou.
“As divisões geopolíticas se aprofundaram. As desigualdades se intensificaram. A confiança se desgastou. A crise climática deixou de ser um alerta distante para se tornar uma realidade cotidiana. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que pegou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram”, pontuou Guterres. “No exato momento em que a humanidade enfrenta uma convergência sem precedentes de ameaças, nossos mecanismos de ação coletiva encontram-se sob crescente pressão.”
Em entrevista ao Guardian, Guterres reforçou seus alertas sobre a crise climática, ressaltando que a ONU tem a obrigação de colocar o clima no centro das preocupações da comunidade internacional, pois é a ameaça existencial global mais relevante. Também reconheceu que faltou à ONU buscar alianças sólidas fora do espectro político tradicional, como organizações de base e governos subnacionais e locais.
“Existem interesses estabelecidos que desejam manter o atual modelo de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis. Mas a maioria das pessoas ainda não internalizou o nível de risco que todos enfrentamos. Espero que a opinião pública se impressione cada vez mais com os impactos devastadores das mudanças climáticas e com os desastres se tornando cada vez mais dramáticos”, afirmou.
Guterres ressaltou que o avanço de fontes renováveis de energia tem sido cada vez mais acelerado, apesar da velocidade dessa transição ainda ser insuficiente. “É evidente que não estamos fazendo o suficiente. Mas estamos desenvolvendo energia renovável a uma velocidade enorme. A crise no Golfo [Pérsico] vai acelerar essa tendência, porque muitas das economias emergentes que são as maiores emissoras são importadoras líquidas de combustíveis fósseis e têm interesse direto no desenvolvimento de energias renováveis”, concluiu.
AFP, AP, Bloomberg, Guardian e New York Times, entre outros, repercutiram o último discurso de Guterres como secretário-geral da ONU na abertura da Assembleia Geral.