A Petrobras anunciou a “presença de hidrocarbonetos” no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. Mesmo sem confirmação de comercialidade, foi o suficiente para que a presidente da empresa, Magda Chambriard, e políticos como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), e até mesmo o presidente Lula celebrassem como se não houvesse amanhã.
Clima do presente, petróleo do passado
A Petrobras anunciou a “presença de hidrocarbonetos” no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. Mesmo sem confirmação de comercialidade, foi o suficiente para que a presidente da empresa, Magda Chambriard, e políticos como o...
De fato, quando se trata do clima do planeta, não há amanhã mesmo. Não como foi ontem, quando começamos a queimar combustíveis fósseis.
- “O clima do século 20 já não existe”, disse o Met Office, serviço meteorológico britânico, em seu relatório anual sobre o estado do clima no Reino Unido.
- Diagnóstico corroborado pelo climatologista equatoriano Raúl Cordero, que realiza várias pesquisas na Antártida e atualmente é professor da Universidade de Groningen, na Holanda.
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De fato, quando se trata do clima do planeta, não há amanhã mesmo. Não há nem hoje. Não como foi ontem, quando começamos a queimar combustíveis fósseis. “O clima do século 20 já não existe”, disse o Met Office, serviço meteorológico britânico, em seu relatório anual sobre o estado do clima no Reino Unido. Diagnóstico corroborado pelo climatologista equatoriano Raúl Cordero, que realiza várias pesquisas na Antártida e atualmente é professor da Universidade de Groningen, na Holanda.
“Não vamos recuperar, pelo menos em nenhum futuro previsível, o clima e a atmosfera que já perdemos. Há uma epidemia de eventos extremos ao redor do mundo que estão se tornando cada vez mais intensos e frequentes”, disse Cordero, em entrevista à BBC. Uma epidemia que talvez não chegue aos escritórios refrigerados das diretorias e presidências de empresas de petróleo e dos gabinetes de políticos, mas que mata, destrói e compromete o futuro de brasileiros da cidade e do campo, incluindo o poderoso agronegócio nacional.
Portanto, a pergunta de bilhões e bilhões de dólares em ativos encalhados é óbvia. Se o clima mudou por conta de um modelo de desenvolvimento que gerou este caos climático, por que insistimos na velha lógica desenvolvimentista do século passado sob o argumento de geração de riqueza que a indústria de petróleo e gás fóssil comprovadamente não entrega? Ou melhor, que só a entrega a um pequeno grupo de acionistas (no caso da Petrobras, boa parte deles nem é do Brasil), enquanto governos e sociedade têm que arcar com os prejuízos climáticos?
O “fantasma” criado da volta da importação de petróleo
Mesmo com apenas “indícios de hidrocarbonetos” em mãos, Magda Chambriard correu para alardear que a “descoberta” no litoral do Amapá confirmava o potencial da Margem Equatorial. A executiva já estima com base em “perfis elétricos e indicativos em rocha” que em seis ou sete anos – ou seja, 2032 ou 2033 – iniciaria a produção no Bloco 59, mesmo ressaltando que não se pode falar que é uma descoberta em escala comercial.
No único cenário com algum grau de otimismo do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), é na década de 2030 que precisaremos dar um “cavalo de pau” para retroceder da inevitável ultrapassagem do 1,5oC estabelecido no Acordo de Paris. Mas, em vez de olhar para o futuro, a presidente da Petrobras preferiu acionar um velho fantasma que os defensores da exploração de petróleo no Brasil “até a última gota” vêm usando desde o ano passado: a necessidade de repor as reservas do país, sob pena de voltarmos a ser importadores de óleo cru.
Magda dirigia a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) quando o Bloco 59 foi leiloado, em 2013. Mais de uma década depois, ao assumir a presidência da Petrobras, parece que explorar petróleo e gás na área virou uma questão de honra para a executiva. Se a BP e a Total, que arremataram o bloco junto com a estatal brasileira na época, não conseguiram licença do IBAMA para perfurar na área e abandonaram o projeto por conta disso, ela faria a Petrobras conseguir. E “abriria a porteira” da exploração de combustíveis fósseis na Foz do Amazonas.
O atraso do modelo de desenvolvimento econômico
Só que muita coisa mudou no clima do planeta nos 13 anos que separam a compra do Bloco 59 e a “descoberta de hidrocarbonetos” no poço Morpho, como consta no comunicado ao mercado feito pela Petrobras. Com mais e mais carbono na atmosfera por conta da queima de combustíveis fósseis, as mudanças climáticas se intensificaram. Os eventos extremos se tornaram mais frequentes e intensos.
Essa cota extra de carbono na atmosfera está encontrando, este ano, um fenômeno climático recorrente, o El Niño. Só que, nessa nova atmosfera, o fenômeno se potencializa em um “Super El Niño”, que se torna a “cereja do bolo” da crise climática que aflige o mundo – uma conta que nunca entra nos cálculos da indústria de petróleo e gás e dos governos que insistem em usá-la como motor de desenvolvimento.
Estes mesmos governos, em todo o mundo, estão “suando” desde o fim de fevereiro para equilibrar suas contas justamente por causa do petróleo e do gás. Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o mercado global dos combustíveis fósseis travou, restringindo a oferta e jogando nas alturas os preços dessas commodities. Resultado: racionamento e energia mais cara.
No Brasil e em vários países do Sul Global, subsídios para segurar os preços dos combustíveis fósseis comprometem recursos que poderiam ir para saúde, educação, segurança. A segurança energética costumeiramente associada ao petróleo virou um “indício de hidrocarboneto”, como o encontrado no Bloco 59. Virou insegurança alimentar. Virou insegurança em relação à própria vida.
Ao fim e ao cabo, pouco importa se a Foz do Amazonas é um deserto petrolífero – afinal, muitos dos quase 100 poços já perfurados na bacia deram seco ou descobriram reservas sem valor comercial – ou uma nova fronteira de petróleo. O que realmente está em jogo, além do jogo da Bolsa de Valores, é a manutenção de um modelo de desenvolvimento econômico e extrativista, que enriquece acionistas de empresas – os atuais resultados financeiros de várias petrolíferas, incluindo a Petrobras, comprovam isso – e empobrece a população. Ainda mais aqueles que já não têm recursos suficientes para viver e que são os mais atingidos pelo “clima do século 21” com seus eventos extremos recorrentes. Isto não é um indício: é uma constatação.