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As jubartes voltam ao Rio: as baleias voltaram da beira da extinção – mas o turismo vai ajudar ou atrapalhar?

A expectativa é palpável a bordo do Boaventura II quando o iate sai do Rio de Janeiro ao nascer do sol. Uma vez além das Ilhas Cagarras, afloramentos rochosos a apenas cinco quilômetros da praia de Ipanema, o grupo se reúne na proa e...

As jubartes voltam ao Rio: as baleias voltaram da beira da extinção – mas o turismo vai ajudar ou atrapalhar?
Resumo 365

“Onze horas!” alguém grita, enquanto um grupo de golfinhos-nariz-de-garrafa aparece, mergulhando alegremente dentro e fora da água. Então, dois jatos de vapor suspensos no ar sinalizam o motivo do passeio: um casal de baleias jubarte.

  • Os majestosos mamíferos emergem para respirar sem pressa, antes de revelar a parte inferior de sua cauda enquanto mergulham de volta debaixo d'água.
  • Este é um momento imperdível para muitos no barco, realçado pelo cenário espetacular das montanhas cobertas de selva do Rio.

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A expectativa é palpável a bordo do Boaventura II quando o iate sai do Rio de Janeiro ao nascer do sol. Uma vez além das Ilhas Cagarras, afloramentos rochosos a apenas cinco quilômetros da praia de Ipanema, o grupo se reúne na proa e começa a esquadrinhar o horizonte.

Eles não precisam esperar muito. “Onze horas!” alguém grita, enquanto um grupo de golfinhos-nariz-de-garrafa aparece, mergulhando alegremente dentro e fora da água. Então, dois jatos de vapor suspensos no ar sinalizam o motivo do passeio: um casal de baleias jubarte. Os majestosos mamíferos emergem para respirar sem pressa, antes de revelar a parte inferior de sua cauda enquanto mergulham de volta debaixo d'água.

Este é um momento imperdível para muitos no barco, realçado pelo cenário espetacular das montanhas cobertas de selva do Rio. Mas tal visão tornou-se cada vez mais comum, à medida que as baleias jubarte do Brasil retornam às margens da Cidade Maravilhosa (Cidade Maravilhosa) durante o inverno do hemisfério sul, após fazerem um retorno notável da quase extinção.

Este ano, uma baleia foi avistada repetidamente na Baía de Guanabara, no Rio. Os avistamentos – pelo menos 18 – são os primeiros e suscitaram especulações de que as jubartes estão a regressar às áreas que ocupavam há séculos.

"Não dá para colocar preço nesse show. É pura magia", afirma o capitão do iate, Theo Andrade, cofundador da agência de turismo ROC Sail. Depois de trabalhar em expedições de observação de baleias em criadouros mais ao norte, Andrade começou a realizar seus próprios passeios no Rio este ano.

Luciane dos Santos, uma passageira de 53 anos, é fascinada pelos gentis gigantes e tirou um dia de sua vida agitada administrando um atacadista de bebidas na esperança de vê-los. “Estou impressionada com a forma como um animal de 50 toneladas consegue dar um salto tão lindo que deixa todo mundo fascinado”, diz ela.

Ela não ficou desapontada. “Sinto uma sensação de plenitude – é realmente uma dádiva da natureza”, diz Dos Santos, depois de uma manhã admirando seis jubartes apresentando seu balé aquático.

As jubartes sempre viajaram ao longo da costa brasileira entre junho e novembro, enquanto migram de áreas de alimentação ao redor da Geórgia do Sul e das Ilhas Sandwich, no Atlântico Sul, para as águas mais quentes e rasas do Banco dos Abrolhos, na costa nordeste do Brasil, para procriar.

Como em outros lugares, a caça indiscriminada – registrada por volta de 1780 no Rio pelo artista Leandro Joaquim, que pintou cenas de baleias sendo perseguidas e arpoadas na Baía de Guanabara – já havia dizimado a população quando a proibição global da caça comercial de baleias entrou em vigor em 1986.

"No final da década de 1980, eram contabilizados menos de mil indivíduos nesse grupo brasileiro. Hoje são quase 30 mil", diz Thiago Ferrari, diretor do projeto de conservação Amigos da Jubarte. Outras estimativas aproximam o número de 35.000.

As águas brasileiras abrigam diversas espécies de baleias, incluindo a outrora ameaçada baleia franca austral – que se acredita ser a espécie retratada na pintura de Joaquim – e a baleia de Bryde. A corcunda de 15 metros de comprimento é, no entanto, “a estrela do espetáculo” devido às suas performances acrobáticas, diz Ferrari.

Liliane Lodi, bióloga marinha que trabalha no projeto de pesquisa Ilhas do Rio, que registrou pela primeira vez uma baleia jubarte nas águas da cidade em 2014. O número de avistamentos disparou desde então e, com eles, a observação de novos e diferentes comportamentos.

“O Rio de Janeiro é uma área de passagem, é uma rota de migração”, diz ela sobre as jubartes. “No entanto, já registramos comportamentos típicos de criadouros, e não de áreas de passagem”.

Isso inclui avistar bezerros recém-nascidos, demonstrações de comportamento competitivo entre machos e gravações de cantos assustadores de baleias.

Este ano, Lodi vem investigando as aparições na Baía de Guanabara. Ela concluiu que se trata da mesma baleia – um filhote que vive nas águas abrigadas da baía desde meados de junho, fazendo as delícias dos canoístas matinais. “É muito sociável quando quer”, diz Lodi, que contou com a ajuda de cientistas cidadãos para estudar o animal.

Esta colaboração entre ciência e lazer é uma das razões pelas quais os defensores acreditam que a florescente indústria de observação de baleias no Rio pode ser uma ferramenta para a conservação, bem como uma nova fonte de receitas turísticas durante o inverno.

Mariana Bueno é estudante de ciências ambientais contratada pela ROC Sail para acompanhar cada passeio de observação de baleias no Boaventura II. “Quando combinamos turismo e investigação”, diz ela, “temos uma recolha de dados infinitamente melhor do que se não trabalhássemos em conjunto”.

Ter um investigador a bordo, diz Ferrari, é “fundamental para um turismo de observação de baleias saudável, sustentável e ordenado”. Com sua equipe de biólogos, a organização ambiental sem fins lucrativos Amigos da Jubarte oferece treinamentos gratuitos em parceria com autoridades locais, por meio das quais já certificou cerca de 20 agências de observação de cetáceos no Rio, incluindo a ROC Sail.

Prancheta em mãos, Bueno responde às perguntas dos turistas, aconselha o capitão a seguir as melhores práticas – como manter pelo menos 100 metros de distância das baleias e nunca passar mais de 30 minutos perto dos mesmos indivíduos – e anotar detalhes de cada avistamento. Todas as informações são repassadas aos Amigos da Jubarte para auxiliar na pesquisa.

“O levantamento do número de indivíduos permite-nos acompanhar o crescimento populacional… e o comportamento individual”, diz Bueno. "Como eles estão interagindo com uma embarcação ou quão curiosos eles são sobre os humanos. Essas pesquisas comportamentais servem então como base para a formulação de leis e regras."

Mas embora Lodi reconheça a contribuição do turismo para a investigação, ela preocupa-se com o seu impacto na conservação, uma vez que a tendência para a observação de baleias no Rio significa que mais barcos se aglomeram em torno do corredor de migração de baleias, logo depois das Ilhas Cagarras.

"Esse aumento populacional é uma fonte de grande felicidade para nós, pesquisadores. Mas com o aumento dos números vem um aumento nos conflitos [humanos-baleias]", diz ela.

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