Mulher com um X vermelho desenhado nas mãos Joédson Alves/Agência Brasil Cerca de 78% das vítimas de feminicídio registradas no Amazonas entre janeiro e maio de 2026 tinham mais de 35 anos, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM). Dos nove casos registrados no período, quatro foram cometidos com uso de arma branca, como facas. Especialistas ouvidas pelo g1 afirmam que esse tipo de arma aparece com frequência nos casos de feminicídio por estar geralmente disponível no ambiente doméstico e representar uma violência mais próxima da vítima. Elas também alertam para a possível subnotificação de casos e de tentativas de feminicídio. Entre os nove feminicídios registrados até maio, quatro tiveram arma branca como instrumento do crime, dois ocorreram por meio de agressões físicas e, em outros dois casos, o meio utilizado não foi identificado. ? Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Um dos crimes aconteceu no dia 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher. A vítima, Roseane Nicolau Canuto, de 39 anos, foi morta a facadas. O marido dela, Hiure Felintro da Silva, de 28 anos, foi preso cerca de uma hora depois e confessou o crime, que, segundo ele, foi motivado por ciúmes. AM registra aumento de 26% nos casos de feminicídio entre 2023 e 2024 Ao todo, as ocorrências foram registradas em Manaus (4), Barcelos (1), Carauari (1), Coari (1), Manaquiri (1) e São Gabriel da Cachoeira (1). Os dados são baseados em boletins de ocorrência registrados nas delegacias da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) e em laudos do Instituto Médico Legal (IML). Crime passou a ter registro específico em 2015 O feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de gênero. O crime foi incluído no Código Penal brasileiro em 2015, por meio da Lei nº 13.104, que aumentou a punição para casos de violência contra a mulher motivados por gênero. A partir da criação da lei, os registros passaram a identificar esses casos de forma separada. A série histórica abaixo reúne os feminicídios registrados no Amazonas entre janeiro e maio dos últimos anos. 2026: Enquanto Brasil reduz feminicídios, Amazonas triplica casos entre abril e maio de 2026 ANUÁRIO: Amazonas registra aumento de 26% nos casos de feminicídio entre 2023 e 2024, aponta Anuário de Segurança Pública DIA DA MULHER: Mulher é morta por marido após crise de ciúmes no interior do Amazonas; suspeito é preso e confessa o crime Especialistas alertam para subnotificação A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Amazonas (OAB-AM), Alessandrine Silva, afirma que o uso de arma branca nos casos de feminicídio mostra uma violência direcionada contra a vítima. Segundo ela, por ser um objeto de fácil acesso dentro de casa, a faca acaba sendo usada como instrumento de agressão em muitos crimes. “Essa arma branca, a faca, que é doméstica e está ali de fácil acesso, é também esse objeto que esse violentador vai depositar todo o ódio e violência que ele obtém contra essa mulher. E aí a gente fala da misoginia embutida nessas violências”, afirmou. A advogada criminalista Natividade Maia também alerta para a subnotificação, principalmente em casos de tentativa de feminicídio. Segundo ela, como muitas agressões acontecem dentro das próprias casas, familiares, vizinhos ou pessoas próximas podem tentar resolver a situação sem que o caso chegue às autoridades. A especialista cita ainda fatores como dependência econômica do agressor, crenças religiosas e falta de alternativas de moradia para mulheres com filhos como dificuldades para romper o ciclo de violência. “Creio firmemente que há muitos casos de tentativa de feminicídio que são subnotificados, porque essas situações ocorrem dentro do lar, na maioria das vezes, e a própria família, vizinhos ou pessoas mais próximas interferem no evento e se ‘resolvem’ em família”, disse. O que diz a SSP-AM Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas informou que o combate à violência contra a mulher é feito de forma integrada entre a Polícia Militar do Amazonas (PMAM), por meio da Ronda Maria da Penha, a Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), o Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC) e outros órgãos da rede de proteção. Segundo a pasta, nenhuma mulher acompanhada pela Ronda Maria da Penha foi vítima de feminicídio. O resultado, de acordo com a secretaria, está relacionado ao acompanhamento das vítimas, à fiscalização do cumprimento de medidas protetivas e ao atendimento prestado às mulheres em situação de violência. A SSP-AM informou ainda que, apesar do aumento de casos em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados seis feminicídios, o número atual permanece abaixo dos maiores acumulados da série histórica. A projeção da secretaria é de que o Amazonas registre 20 feminicídios até o fim de 2026, mantendo o mesmo total contabilizado em 2025.