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‘Todo mundo está com medo’: Porto Alegre atingida pelas enchentes se prepara para outro El Niño

Nas ruelas de Porto Alegre, capital do sul do Brasil, ainda é possível ver sinais da enchente devastadora que varreu a cidade há dois anos: destroços espalhados, casas alagadas e empresas destruídas. Em maio de 2024, as enchentes mataram...

‘Todo mundo está com medo’: Porto Alegre atingida pelas enchentes se prepara para outro El Niño
Resumo 365

O bairro de Sarandi foi um dos mais atingidos em Porto Alegre, com níveis de água chegando a 5 metros acima do normal, submergindo completamente muitas de suas ruas. “A maioria das pessoas ainda sofre as consequências da enchente para a saúde mental”, diz Luís Rogério “Jamaika” Machado, líder comunitário em Sarandi.

  • Incapazes de reconstruir as suas casas, a maioria ficou profundamente deprimida." No mês passado, os meteorologistas anunciaram o regresso iminente do El Niño, o fenómeno natural causado...
  • O El Niño, que perturba os padrões climáticos em todo o mundo, provavelmente causará chuvas extremas e inundações no sul do Brasil.

Leitura editorial organizada apenas com informações contidas nesta matéria e na fonte identificada.

Nas ruelas de Porto Alegre, capital do sul do Brasil, ainda é possível ver sinais da enchente devastadora que varreu a cidade há dois anos: destroços espalhados, casas alagadas e empresas destruídas.

Em maio de 2024, as enchentes mataram 183 pessoas no estado do Rio Grande do Sul e deslocaram mais de 600 mil. O bairro de Sarandi foi um dos mais atingidos em Porto Alegre, com níveis de água chegando a 5 metros acima do normal, submergindo completamente muitas de suas ruas.

“A maioria das pessoas ainda sofre as consequências da enchente para a saúde mental”, diz Luís Rogério “Jamaika” Machado, líder comunitário em Sarandi.

"Eles perderam absolutamente tudo. Incapazes de reconstruir as suas casas, a maioria ficou profundamente deprimida."

No mês passado, os meteorologistas anunciaram o regresso iminente do El Niño, o fenómeno natural causado pelo aumento da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial, mas cujos efeitos são grandemente agravados pela crise climática. O El Niño, que perturba os padrões climáticos em todo o mundo, provavelmente causará chuvas extremas e inundações no sul do Brasil.

A Jamaica vive em um quilombo urbano, um assentamento brasileiro fundado por escravos fugitivos ou seus descendentes. O Quilombo dos Machado é um dos 11 territórios de Porto Alegre e serviu como centro de solidariedade para toda a região de Sarandi durante a enchente, distribuindo alimentos, roupas e assistência médica a milhares de famílias.

Agora, as comunidades de Porto Alegre atingidas pelas cheias, embora ainda estejam a recuperar de uma das catástrofes climáticas mais mortíferas do Brasil, enfrentam ameaças renovadas do El Niño em desenvolvimento deste ano, à medida que as defesas incompletas contra as cheias e os esquemas de realocação do governo alimentam os receios de deslocação e aprofundam uma crise de justiça climática.

Sarandi, juntamente com outras áreas mais pobres da cidade, é um exemplo. Apesar de estarem entre os menos responsáveis ??pelas emissões que causam o colapso climático, as pessoas sofreram os piores efeitos das cheias de 2024.

Este desequilíbrio levou o grupo de pesquisa de Porto Alegre do Observatório das Metrópoles, parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Brasil, a chamar a enchente de crise de justiça climática.

Agora, estas mesmas pessoas estão a preparar-se para mais um desastre induzido pelo clima.

As primeiras tempestades causadas pelo último El Niño chegaram ao Rio Grande do Sul no mês passado, com chuvas e ventos fortes perturbando a região. A subida do nível dos rios afectou pelo menos 200 municípios, deixando 1.800 pessoas desalojadas e muitas mais indignadas com a inacção do governo nos últimos dois anos.

“O El Niño atinge o pico em dezembro, janeiro e fevereiro”, diz Wilfran Moufouma-Okia, chefe de previsão climática da Organização Meteorológica Mundial. “Portanto, estamos apenas no começo.”

Para a população de Porto Alegre, as manchetes trazem receios renovados.

“Nossa casa ficou completamente submersa. Perdemos tudo", diz Suelen Telles, professora de educação infantil que mora em Sarandi. "Depois voltamos para casa e estamos com medo de perder tudo de novo. Todo mundo na nossa rua está com medo.”

Após perder a casa em 2024, Solange Rodrigues Correa foi morar com o neto na Ilha Grande dos Marinheiros, arquipélago na periferia da cidade. As notícias a deixaram preocupada com o retorno das águas das enchentes, e Correa, que sofreu um derrame devido ao estresse das enchentes de 2024, não dorme há várias noites consecutivas.

“Mais uma vez, o que será de nós?” ela diz.

Rudimar Dal Asta, padre da Ilha Grande dos Marinheiros e um dos líderes comunitários que ajudaram nas missões de resgate durante a enchente anterior, diz que o governo deu garantias de que existe um plano de evacuação, mas ainda não o viu. “Nossa rota de fuga é correr até a ponte, assim como fizemos em 2024”, afirma.

Nos últimos meses, Porto Alegre consertou comportas, substituiu tampas de esgoto e reconstruiu um trecho do dique Sarandi. O prefeito Sebastião Melo anunciou que as melhorias nas estações elevatórias – que foram desligadas em 2024 devido ao risco de choque elétrico – seriam concluídas até novembro.

“Terminamos muitos projetos”, diz Melo. "Outros estão em construção e outros ainda não foram iniciados. Porto Alegre é hoje uma cidade muito mais protegida."

No sul da cidade, porém, os preparativos continuam improvisados: sacos de areia, barreiras móveis e bombas flutuantes. Certos bairros, como a Ilha Grande dos Marinheiros, não possuem infraestrutura de proteção adequada e as pessoas estão apreensivas.

“Os sistemas de proteção contra enchentes ainda estão incompletos”, afirma Leonardo Bauer Maggi, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), um grande movimento social de base que apoia a população afetada.

“Eles instalaram sirenes de emergência, mas não sabemos para onde correr se elas soarem”, diz ele. “Nenhum abrigo foi preparado.”

A administração de Porto Alegre está agora sendo processada pelas falhas do sistema de proteção contra enchentes em 2024. No ano passado, o Tribunal de Contas do Estado revelou que a falta de investimento e uma série de outras falhas combinaram-se para enfraquecer as medidas de proteção contra enchentes em Porto Alegre.

Os auditores responsabilizaram Melo, assim como o ex-prefeito Nelson Marchezan Júnior, por “grave desrespeito ao dever de zelo”. Desde então, o Ministério Público processou a cidade de Porto Alegre em 50 milhões de reais (7,3 milhões de libras) para reembolsar 19 bairros afetados pelas enchentes.

“Queremos nos preparar para o El Niño, mas ainda não sabemos como”, diz Jamaika. “Quando a água sobe, a única alternativa apresentada pelo governo é sair da área em caso de emergência.”

No mês passado, o governo do estado lançou o Prepara RS, uma iniciativa emergencial para auxiliar formuladores de políticas, organizar voluntários e fornecer orientação pública sobre tempestades iminentes ao povo do Rio Grande do Sul. A iniciativa transferiu 32,3 milhões de reais para 138 municípios do estado.

Num comunicado elogiando a qualidade dos seus sistemas de monitorização e das suas defesas contra inundações, o governo do estado disse: “Nos últimos anos, o governo tem