Polo Industrial de Manaus Arquivo/G1 AM Basta observar o trânsito das cidades brasileiras para perceber que a motocicleta ganhou espaço. Ela transporta trabalhadores, sustenta serviços de entrega, encurta deslocamentos e, para muitas famílias, tornou-se a alternativa possível diante de um automóvel cada vez mais caro. Ao mesmo tempo, avança como opção de lazer, esporte, viagens e consumo de maior valor. Essa combinação ajuda a explicar por que o mercado brasileiro vive um novo ciclo de expansão - e por que seus efeitos chegam diretamente ao Polo Industrial de Manaus (PIM), onde está concentrada quase toda a produção nacional. Em julho, as fábricas instaladas em Manaus produziram 190.794 motocicletas, o maior volume já registrado para o mês. O resultado representou crescimento de 36% em relação a julho de 2025 e de 45,8% na comparação com junho. No primeiro semestre, saíram das linhas de montagem 1.063.397 unidades, alta de 6,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Com o desempenho de julho, a produção acumulada nos sete primeiros meses chegou a 1.254.191 motocicletas, avanço de 9,9% e melhor resultado para o período desde 2008. Para 2026, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) projeta a fabricação de 2,07 milhões de unidades, 4,5% acima das 1.980.538 motocicletas produzidas em 2025. Os números impressionam, mas o contexto explica A motocicleta passou a responder a diferentes necessidades do brasileiro. Em geral, exige um investimento menor do que um automóvel e apresenta custos mais baixos de combustível, manutenção e estacionamento. Em cidades congestionadas, também representa economia de tempo. Existe ainda uma relação direta com o trabalho. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 1,05 milhão de pessoas trabalhavam como condutores de motocicletas em 2024. Desse total, 351 mil, ou 33,5%, atuavam por meio de plataformas digitais. O dado também chama atenção pelo que mostra fora dos aplicativos: dois terços desses profissionais não eram plataformizados. Nesse universo estão mototaxistas, entregadores contratados diretamente por empresas, técnicos, vendedores, prestadores de serviços e pequenos empreendedores que utilizam a motocicleta para gerar renda. O crescimento do comércio eletrônico e das entregas rápidas ampliou essa demanda. Restaurantes, farmácias, supermercados e lojas incorporaram a entrega à própria operação. Em municípios menores, bairros periféricos e áreas rurais, a moto também ocupa espaços deixados por sistemas de transporte coletivo insuficientes ou inexistentes. Em 2024, a base do Registro Nacional de Veículos Automotores (Renavam) já reunia 34,2 milhões de motocicletas, motonetas e ciclomotores emplacados no Brasil. Um mercado mais diversificado Seria uma simplificação atribuir esse crescimento apenas à renda limitada, ao delivery ou ao trânsito. Existe outra transformação em curso: a diversificação do consumidor e do próprio mercado. Além das motos populares e urbanas, aumentou a oferta de scooters, modelos de média e alta cilindrada, motocicletas destinadas a viagens, esporte e uso fora de estrada, além das primeiras apostas na eletrificação. A própria segmentação adotada pela Abraciclo contempla categorias como crossover, classic, super sport e sport touring. Embora os modelos de baixa cilindrada continuem predominando, as motocicletas de alta cilindrada apresentaram crescimento de 41,9% na produção entre janeiro e maio, ainda que representassem apenas 3% do volume total. É nesse mercado mais amplo que empresas com propostas muito diferentes começam a expandir ou preparar operações em Manaus. Ampliações, novas operações e projetos A CFMOTO está adaptando sua operação para elevar a capacidade anual de 10 mil para aproximadamente 18 mil motocicletas até o início de 2027. A empresa anunciou a implantação de um segundo turno em agosto. A produção, que estava entre 500 e 600 unidades mensais, tem como meta dobrar até o fim de 2026. O valor do investimento não foi divulgado. A Triumph informou investimento de 1,5 milhão de libras, cerca de R$ 10,6 milhões na conversão divulgada pela empresa, para ampliar a capacidade da fábrica de Manaus de 15 mil para 30 mil motocicletas por ano. O projeto inclui uma nova linha para montagem de chassis e motores, sistema de movimentação automática e mais mil metros quadrados para armazenagem. A Suzuki informou ter aplicado aproximadamente R$ 35 milhões nas linhas de produção em Manaus nos últimos três anos. Para os próximos dois, projeta investir mais R$ 20 milhões na construção de galpões. A operação também pretende elevar o quadro de cerca de 400 para até mil trabalhadores. Tanto o novo investimento quanto a ampliação dos empregos são metas anunciadas e ainda dependem da execução dos planos. A Royal Enfield, que atualmente monta motocicletas em Manaus por meio de acordos com a Dafra e o Grupo Multi, confirmou a intenção de iniciar uma operação própria na capital amazonense em 2027. No anúncio mais recente, a companhia não informou o investimento nem a capacidade produtiva da futura unidade. A KTM também passa por uma mudança. A operação brasileira está sob gestão da Bajaj desde junho e prepara uma unidade industrial independente no Distrito Industrial, destinada aos produtos KTM e Husqvarna. As primeiras unidades de teste já haviam sido montadas, e o início da produção regular estava previsto para setembro. A Moto Morini, por sua vez, mantém a fabricação com a DBS. O espaço utilizado pela marca passou para uma nova planta de 2 mil metros quadrados, com possibilidade de expansão para 4 mil. A meta anunciada é produzir 1,6 mil motocicletas em 2026 e superar 5 mil em 2027. Os investimentos na estrutura pertencem à DBS, e a Moto Morini ainda avalia se terá uma fábrica própria no futuro. Também aparece nesse segmento o Grupo MXF, que anunciou uma fábrica própria em Manaus para motocicletas de performance, quadriciclos e o