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O Brasil e o privilégio de poder escolher

Todo dia fazemos escolhas cotidianas, como o que comer e como passar o nosso tempo. Essas escolhas importam, mas raramente transformam vidas. As grandes escolhas são raras. Elas dependem do alinhamento de fatores tais...

O Brasil e o privilégio de poder escolher
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Todo dia fazemos escolhas cotidianas, como o que comer e como passar o nosso tempo. Essas escolhas importam, mas raramente transformam vidas. As grandes escolhas são raras. Elas dependem do alinhamento de fatores tais como o acúmulo de experiência e de recursos e o estar no lugar certo, no momento certo. Quem viveu uma oportunidade como essa sabe do que...

Key points

  • Todo dia fazemos escolhas cotidianas, como o que comer e como passar o nosso tempo.
  • Essas escolhas importam, mas raramente transformam vidas.
  • Elas dependem do alinhamento de fatores tais como o acúmulo de experiência e de recursos e o estar no lugar certo, no momento certo.

Context

This story is part of the Climate coverage. The original reporting source identified by the page is ClimaInfo. Publication date: September 1, 2026 at 09:53.

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Todo dia fazemos escolhas cotidianas, como o que comer e como passar o nosso tempo. Essas escolhas importam, mas raramente transformam vidas. As grandes escolhas são raras. Elas dependem do alinhamento de fatores tais como o acúmulo de experiência e de recursos e o estar no lugar certo, no momento certo. Quem viveu uma oportunidade como essa sabe do que falamos. E sabe que deixá-la passar pode pesar por muito tempo.

Com os países acontece o mesmo. A maioria deles, na maior parte do tempo, administra o que tem, navega pelas circunstâncias e torce para que estas não piorem. Mas em certos momentos da história, algumas nações se encontram numa posição rara: a de poder fazer grandes escolhas. É o que o Brasil vive hoje.

Há nações com economia sólida, mas sem território ou recursos naturais. Há outras com terra e riquezas naturais em abundância, mas sem estabilidade institucional ou democracia. Há países com tudo isso, mas com população minúscula ou sob o gelo na metade do ano. O Brasil reúne, de maneira quase única, todos esses fatores: território continental, biodiversidade incomparável, energia renovável, base industrial e agrícola consolidada, instituições democráticas que funcionam e uma posição geopolítica invejável. O momento global é favorável. O mundo está se reorganizando em torno de novas tecnologias e indústrias e o Brasil tem o que o mundo quer.

Nosso hino diz que somos gigantes pela própria natureza. Mas por muito tempo nossa natureza foi utilizada para alimentar outros gigantes. Exportamos pau brasil, açúcar, ouro, café, borracha, soja, minérios, petróleo – todas matérias primas para o crescimento alheio. Fomos, durante séculos o país que vendia farinha, ovos e açúcar para que outros fizessem o bolo e nos vendessem uns pedaços.

O Brasil pode ser hoje, simultaneamente, um gigante em duas grandes corridas globais. A primeira é a corrida pela eletrificação e pela energia renovável. A Europa avança rumo à eletrificação de sua indústria. A China lidera a instalação e produção de tecnologias de energia limpa. Os Estados Unidos travam guerras comerciais em torno de painéis solares, baterias e veículos elétricos e investem em energia nuclear e geotérmica. Mas nenhum deles tem quase 90% da sua eletricidade gerada por fontes renováveis — vento, água, biomassa —, além do potencial de geração de hidrogênio verde e de novos biocombustíveis que o Brasil esbanja.

A questão é o que vamos fazer com essas vantagens. Podemos continuar no modelo conhecido e exportar commodities e recursos brutos, ou podemos usar essa vantagem para construir uma indústria verde própria de aço e fertilizantes verdes, combustíveis sustentáveis para aviação, minerais processados e química verde, desempenhando um novo papel na cadeia produtiva do século XXI. Ao invés de comercializar farinha, ovo e o açúcar, o Brasil pode fazer e vender o bolo, além de também comer uns bons pedaços.

A segunda corrida é a da economia digital e da inteligência artificial, onde há uma escolha fundamental: queremos ser um mercado passivo, que entrega dados, água, eletricidade e soberania a grandes empresas estrangeiras? Ou construir uma posição própria, com infraestrutura digital nacional, sistemas de inteligência artificial nacionais e treinados em português e uma regulação que proteja os cidadãos? O PIX é um exemplo concreto do que é possível: um sistema de pagamentos brasileiro, referência global que funciona quase sem depender de nenhuma Big Tech, à exceção dos sistemas de nuvem por onde voam as operações. Podemos construir mais disso, fomentando a indústria nacional. Ou podemos terceirizar nossa soberania digital, peça por peça, gota por gota, e descobrir, tarde demais, o preço a pagar.

Aproveitar esta capacidade de escolha depende do papel que queremos atribuir ao Estado. A história dos países que conseguiram transformar vantagens em prosperidade duradoura, da Coreia do Sul à Noruega, do Japão à China, é sempre a história de um Estado que planejou, fomentou, regulou e orientou. Não um Estado que faz tudo, mas um Estado que sabe o que precisa ser feito e age para que isso aconteça.

No Brasil, isso significa criar políticas que orientem o investimento, usar o BNDES para fomentar cadeias industriais verdes, coordenar os setores energético e agrícola e estabelecer conexões em que ambos ganhem, ao mesmo tempo em que protegemos o meio ambiente. Significa regulamentar a inteligência artificial antes que ela reja a nossa democracia e as nossas vidas. Significa criar regras claras para que as energias limpas gerem desenvolvimento local às comunidades, e não apenas lucro para quem instala e opera. Significa ter coragem para enfrentar algumas brigas, inclusive com empresas poderosas que preferem um Brasil sem regras.

Isso nos leva a outubro e ao futuro. O governo que os brasileiros escolherem nas eleições será a última administração anterior à década de 2030. Esta será a década em que os impactos das mudanças climáticas se tornarão ainda mais severos e frequentes, em que a inteligência artificial remodelará mercados de trabalho inteiros, em que a desinformação testará os limites das democracias, e em que a dependência de combustíveis fósseis cobrará um preço cada vez mais alto de quem não tiver feito a transição. As escolhas que fizermos agora, as políticas que aprovarmos, as indústrias que fomentarmos, as regulações que construirmos, determinarão se o Brasil chegará à próxima década como um país preparado, competitivo e soberano, ou se chegará despreparado e vitimizado.

Não estamos falando só da presidência do país. Estamos falando de governadores que definem políticas industriais, energéticas e de uso do solo nos estados. De deputados e senadores que aprovam ou bloqueiam regulações, que liberam ou travam o orçamento, que constroem ou destroem as condições para que as boas ideias se tornem realidade.

As cartas estão na mesa. Existe a possibilidade de um projeto político que aposta num Estado altivo, capaz de orientar a transição ecológica e defender a sob

Source: ClimaInfo

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